Via – Maracá Livre

Texto por Narelly Batista com fotos de cobertura colaborativa do FacciónUY2015 e de Amanda Souza do Jornalistas Livres

Terminou no sábado (27/09) o 3º Encontro Latino Americano de Midiativismo, o Facción. Realizado em Montevidéu, no Uruguai, o evento reuniu cerca de 150 coletivos de 20 países para discutir os rumos das iniciativas comunicacionais com incidência e luta pela transformação na América Latina. Para isso foram abordados temas voltados à democratização das mídias, defesa dos direitos humanos e formas de fortalecer as atividades de mídia livre já em vigor.

Nos últimos anos a situação política e econômica dos países latinos exigiu dos grupos políticos transformações que, não raro, são impossíveis sem a regulamentação da comunicação. O que não sabiam, no entanto, ou não quiseram observar, é que a crise na comunicação é também o resultado da falência do capitalismo e do uso das plataformas como meros instrumentos de manipulação de capital e poder. Dessa maneira experimentações de comunicação nas redes surgiram de forma pulverizada e livre por todos os cantos da América Latina. A isso poderíamos dar o nome de revolução, mas nem essas pessoas que ali criavam redes sabiam das narrativas e disputas que criariam.

Neste evento, tais iniciativas foram celebradas com mais discussão e mais projetos.

“Somar, multiplicar, intensificar, fortalecer e difundir”, estas foram as palavras chave dos quatro dias no Uruguai. O lugar não poderia ser melhor. Com um histórico de avanços sociais à frente dp resto do mundo impressionantes, como a legalização do divórcio, a união civil entre pessoas do mesmo sexo, o casamento homossexual, a adoção homoparental, a liberação da maconha e a legalização do aborto, o Uruguai possui também curiosas histórias de exclusão étnicas e raciais. Essas também foram pautas acompanhadas pelos faccioneiros.

Como vivem as minorias étnicas no Uruguai?

“Não há índios aqui e se quiser saber sobre os negros terá de andar um pouco. Até temos, mas são poucos. Aqui, agora que temos mais negros. A maioria são dominicanos”, explicou Marcelo, de 81 anos, 50 trabalhando com couro.

A economia do Uruguai gira basicamente em torno do turismo e da atividade agropecuária. Na colonização do país as comunidades indígenas quase desapareceram. Para que a atividade agrícola fosse ampliada em espaço territorial, genocídios indígenas, também comuns ao período colonial do Brasil, dizimaram grupos inteiros. Há registros de que sete povos de nacionalidades indígenas passaram pelo Uruguai. Hoje os Charruas, uma das etnias ainda presentes no país, reivindicam o reconhecimento do grupo por parte das autoridades políticas.

Segundo Marcelo, não reconhecê-los é mais fácil para o governo. “Se não existem, não há motivos para separar terras ou desenvolver políticas para eles”. Marcelo diz que tem conhecimento de causa: viu na infância os homens de sua família festejarem a ausência de políticas aos indígenas, que foram gradativamente embranquecidos e enquadrados nos costumes e organização européia que o país ganhou com sua colonização.

A história não parece ser do mesmo país que está em muitos momentos à frente nas questões dos direitos civis e humanos, mas é. Em visita ao Cento de Cultura Afro-Uruguaia, uma curiosidade: o bairro Pallermo, onde no passado viviam os negros, onde nasceram o ritmo e a dança candombe, já não mais possui tantas cores. A população negra embranqueceu-se com a união entre brancos e negros, os negros que viviam ali foram dando espaço à especulação imobiliária e apenas o centro cultural e a casa de candombe à frente dele lembrava os tempos outros. Claro que a comunidade negra existe, mas em situação bastante diferente do passado.

Os registros oficiais afirmam que os negros já foram mais de 50% da população do Uruguai. Hoje, 4% das pessoas se auto-declaram negras, 8% mestiças, e os demais 88% são brancos. Mesmo nessa situação, a cultura africana está de forma bastante presente na cultura uruguaia. O candombe e os tambores são orgulho nacional, e pelas ruas de Montevidéu entre quinta e sábado pode se ver muitos grupos do ritmo.

Miguel Rivera, de 64 anos, afro-uruguaio, serviu ao exército durante a guerra civil do Uruguai. Precisou sair de Rivera, sua cidade natal, para cumprir atividades militares em Montevidéu e desde então, não saiu mais de lá. Quando perguntei a ele se já tinha sofrido racismo, Miguel teve dúvidas, mas contou uma situação classificada por ele como ‘curiosa’: “houve um tempo em que até briguei com meu superior. Só preto ia para as batalhas. Não entendia. Acho que não tem racismo hoje, mas às vezes acho que antes tinha sim”. Depois de lutar na guerra conta que conseguir emprego “foi bem complicado”.

Diante dos problemas que a comunidade negra enfrenta, poucas são as políticas públicas voltadas ao grupo, mas isso não significa que não existam. O congresso aprovou em 2013 uma lei que destina 8% das vagas de cargos públicos a pessoas de origem africana. O projeto inicial, proposto em 2012, criava também cotas em bolsas de estudo, mas esse parágrafo foi excluído do texto final.

Além disso, o Estado passou a “recompensar” as empresas particulares que inserem ao seu quadro de funcionários afro-uruguaios por meio de aumento nos benefícios fiscais.  Enquanto a comunidade negra tem dificuldades de entrar nas universidades e nos postos de poder, é comum que jovens negros consigam ascensão por meio do futebol. Assim como no Brasil, a bola é o que mantém viva as esperanças de muitos jovens negros da periferia.

É nesse contexto que o movimento negro uruguaio trabalha. Desafia-se todos os dias a passar por cima da teoria de democracia racial fortemente presente e fortalecida com o grupo pequeno de negros que tem. Quando questionados sobre discriminação racial, os uruguaios com quem falei refutam a idéia de que o país possa ser racista. “Acredito que a maior luta é relacionada à pobreza e não à cor. A cor é indiferente, precisa ser. Não faz sentido reforçarmos racismos. Se eu pudesse trabalhava só com preto: são melhores pagantes – já levei muito cano de branco – além de serem mais bonitos”, explicou Marcelo.  Terminou o papo me abraçando, dizendo que sou uma bela mulata, tipicamente brasileira e que poderia morar no Uruguai se quisesse. “Fazer uma bela mistura”, concluiu.

A mistura a qual Marcelo comentou, acreditando ser o caminho para por fim as desigualdades entre brancos e negros do país, é a mesma desacreditada pelo coletivo de mulheres afro-uruguaias, Mizanga. Em um breve papo elas falaram sobre como a teoria de mestiçagem veio enfraquecendo a busca por equidade dos negros no país.

“No passado os negros foram colocados no bairro Pallermo porque ali era mais próximo do Rio Del Plata. E a nossa localização geográfica não era para ter uma bela paisagem, mas sim porque era o lugar mais ruim de se viver. Vento, infertilidade do solo e distância do centro. Hoje fomos indo para mais longe do centro. Estamos mais escondidos e bem menores. As pessoas não entendem muito porque falarmos de raça.”, explicaram.

“Elas acreditam que o fim das desigualdades se dá meramente pela luta contra o mercado e o conservadorismo, mas ser negro não é ser avançado ou mesmo progressista. É só ser gente diferente e imutável.”, concluiu Miguel.

O Candombe
Candombe é um ritmo proveniente da Africa, e tem sido parte importante da cultura uruguaia por mais de 200 anos.

O Candombe é a sobrevivência do acervo ancestral africano da raiz Bantú trazidos pelos negros chegados ao Rio de la Plata. O termo é genérico para todos os bailes de negros: sinônimo de dança negra, e evocação do ritual da raça negra. O espirito musical conta dos lamentos dos escravos desafortunados, que contra a própria vontade foram levados para a América do Sul, para serem vendidos e submetidos a humilhações e duras tarefas. Eram almas sofridas, sob inconsolável nostalgia da terra natal. Na época da colônia, os africanos recém-chegados chamavam seus tambores de tangó, e também usavam tangó para denominar o lugar onde realizavam suas danças candomberas. Com a palavra tangó designava-se o lugar, o instrumento e a dança dos negros.

De quinta a domingo, as ruas de Montevideo ganha vida e som com o candombe com resistência, dança, música e história.

Fotos: Amanda Souza dos Jornalistas Livres