Os impactos da eleição de Eduardo Cunha, presidente da Câmara Federal dos Deputados, pela ótica do feminismo. Entrevistamos Sônia Coelho, coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres, que o classifica como a “síntese perfeita do Congresso mais conservador desde a ditadura”.

Ato da Marcha Mundial das Mulheres no primeiro dia de debates na Bienal da UNE. Foto: Mídia NINJA

Ato da Marcha Mundial das Mulheres no primeiro dia de debates na Bienal da UNE. Foto: Mídia NINJA

Um movimento de mulheres, que junta mulheres. Assim, de forma resumida, Sônia define a organização da qual faz parte, uma rede de ações feministas que já nos anos 2000 reunia cerca de 6 mil grupos de 159 países e territórios. Em uma conversa de 20 minutos, discorreu sobre os efeitos nefastos da eleição de Cunha – comemorada pela direita e por parte da esquerda como derrota do projeto petista – que classifica como uma derrota dura para Dilma, mas muito pior para as mulheres brasileiras. Ainda ressalta a importância da mídia independente, a reforma política e o machismo na esquerda.

Estudantes acompanham debate de abertura da Bienal, com presença de Sônia Coelho e João Pedro Stédile. Foto: Mídia NINJA

Estudantes acompanham debate de abertura da Bienal, com presença de Sônia Coelho e João Pedro Stédile. Foto: Mídia NINJA

O que é a Marcha Mundial das Mulheres?

A marcha é um movimento de mulheres que ajuda mulheres do campo, da cidade, trabalhadoras, sindicalistas, juventude e outras mulheres jovens que se organizam em vários países do mundo. A gente se articula no Brasil e somos organizadas nacionalmente. É um movimento de base, de reivindicação, de protesto, de proposições, um movimento social feminista, anti-capitalista e anti-racista.

Como você avalia o avanço do feminismo no Brasil, as conquistas e fenômenos como a Marcha das Vadias?

Eu acho que o feminismo no Brasil tem se espalhado. Hoje, por exemplo, nós temos discutido a Marcha das Margaridas que conta com 70 mil mulheres do campo, das florestas, das águas. Trabalhadoras rurais em conjunto com as feministas das organizações da cidade para propôr uma plataforma pro governo e pra suas organizações locais. Para mudar a situação de desigualdade tanto pra dentro das organizações, quanto pra fora, no governo. Então eu acho que nesse sentido o movimento está indo bem à medida que se vê muitas mulheres auto-organizadas e não só os grupos feministas.

Do ponto de vista das políticas públicas, se a gente olhar, algumas coisas tem avançado, outras estão totalmente paralisadasm além de alguns riscos de retrocesso. De avanço, as mulheres do campo já são vistas como sujeitas com direitos, como o da assistência técnica para os seus projetos, o reconhecimento de que os trabalhos no campo também são produtivos. A própria política nacional de agro-ecologia, que tá se implantando foi uma proposição junto com outros movimentos mas também teve muito protagonismo das mulheres campesinas. De estagnado, temos por exemplo, a questão de você decidir se quer ou não ter filhos e a questão do aborto clandestino, que é um problema no Brasil. As mulheres morrem, as mulheres pobres e negras sofrem as maiores consequências dessa clandestinidade do aborto. Esse tema não só não avançou, como muitos projetos já tentam, inclusive os do Eduardo Cunha, retroceder nesses direitos.

Estão tentando retroceder o aborto legal, que é o aborto que existe no Brasil, nos casos de ancefalia, de estupro, em risco de vida da mãe. Eles querem mudar isso. A gente ta vivendo um momento de muita criminalização das mulheres, de caça às clínicas, de criminalização daquelas que abortam, de problemas nos hospitais, mesmo hoje a mulher com aborto espontâneo, quando ela chega no hospital, ela não está livre de ser interrogada, ficar jogada sem atendimento, a gente tem tido vários casos denunciados em relação a isso.

No ponto de vista da violência avançou por lei, que no caso, foi a Lei Maria da Penha e agora sendo aprovado um projeto que tem a questão do feminicídio, mas essa lei ainda não está totalmente implementada como deveria estar, então temos muitos obstáculos seja no judiciário, onde o machismo é impregnado, seja na falta de orçamentos dos estados que não colocam um centavo nessas políticas, e sabemos que não se faz política sem recurso, ou as vezes a própria forma que os municípios negligenciam recurso que poderiam ter do próprio âmbito federal, e sequer vão atrás desse recurso pra implementar.

Falando de Eduardo Cunha, qual significado de sua eleição para o movimento?

O Eduardo Cunha significa tudo de mal para o movimento feminista no Brasil. É a maldade total no congresso brasileiro. No ano passado por exemplo, infelizmente tivemos que ficar muitas vezes nessa agenda negativa, correndo atrás pra que ele não aprovasse projetos como o de tornar o aborto clandestino um crime hediondo. Ele tem projeto pra impedir que uma mulher que sofra estupro receba o atendimento adequado e constantemente ele milita para retroceder o direito das mulheres.

Ele é um velho conhecido nosso e é claro que ele vai atuar lá prejudicando toda a classe trabalhadora e facilitando os interesses dos ruralistas, dos grandes empresários, que a gente sabe que a é a origem dele. Sabemos ainda que ele vai aproveitar para passar projetos que ele não havia conseguido passar. Ele é um dos que encabeça essa bancada religiosa e não aceita nenhum direito, e não só para as mulheres, os gays também. Ele é protagonista naquele projeto da cura gay e vários outros que são totalmente retrógrados e que demarcam uma sociedade totalmente conservadora, patriarcal. É isso o que ele representa para nós. Além dos interesses de classe dele, o que é muito explícito, ele tem essa identidade, extremamente patriarcal, racista e homofóbico.

O que nos leva novamente ao tema da reforma politica…

É.. mais uma vez o debate da reforma política. Não é um debate que ele tem interesse de colocar em pauta, mas pra nós, é fundamental. Estamos no processo de discussão, de mobilização e de você poder incidir e dizer qual é a reforma que nós tanto queremos.

Se ele fizer essa reforma, vai ser pra aumentar o financiamento empresarial. Segundo reportagens, ele conseguiu articular financiamento pra pelo menos 60 deputados, é um cara que tem uma bancada própria para articular seus interesses pessoais. Ele é um cara extremamente perigoso e encaroça os interesses feministas, de classe, da população LGBT, da população indígena, nas questões de terra e todas as outras questões que hoje nos ameaçam, com certeza ele vai querere apoiar, ou pelo menos querer negociar a partir dos interesses dele, com emendas e outros projetos. Muitas vezes eles pegam determinado projeto e ameaçam a por na pauta pra retroceder os direitos, aí negocia o projeto com o nome do projeto dele querendo outro interesses de verba, e é perigoso, anti-ético, anti-democrático, ele conseguiu ser a síntese desse congresso. Ele juntou tudo, é conservador, é racista, é homofóbico.

Você reforça muito a ideia de atrelar a luta feminista com a questão de classe, uma visão de esquerda baseada na igualdade. Vemos recentemente uma onda de críticas a homens declaradamente de esquerda, como Idelber e Latuff, nos interessa muito entender a visão de uma feminista da marcha sobre esse tema.

Então, acho que essa sempre foi uma briga histórica com a esquerda, que precisa incorporar essa perspectiva feminista. Não basta você socializar os meios de produção se você não reconhecer o trabalho das mulheres, se você não reconhecer que esse sistema capitalista e patriarcal se estrutura a partir dessas opressões, e essas opressões feministas e racistas, coexistem também por razões de classe.

Pra nós é muito ruim quando a gente vê companheiros que deveriam ser nossos aliados reproduzindo a violência, reproduzindo machismo, banalizando um sexismo, isso tem uma repercussão muito ruim. Nós, da Marcha Mundial das Mulheres, somos um movimento feminista que tem mulheres de todos os setores, nós queremos construir esse arco de aliança, porque a gente sabe que não é o feminismo sozinho que vai fazer todas as transformações, e a gente tem que construir essas alianças.

A gente quer também incidir para que os movimentos incorporem essa perspectiva, e a gente tá vendo hoje que muitas vezes os próprios grupos de esquerda acabam reproduzindo o machismo, o banalizando. Isso pra fora, pra sociedade, vindo de pessoas importantes como Latuff, e tantas outras por aí que reproduzem o machismo tem uma influência muito grande, ou seja, se uma coisa ja ta banalizada na sociedade, isso ajuda a banalizar ainda mais e ganha mais legitimidade.

Faz pouco tempo que a gente tava num curso de formação das trabalhadoras rurais, onde elas estavam colocando a problemática da violência no interior dos sindicatos, de assédio sexual, de companheiro que chega com elas e falam – “Você chegou aqui, mas não pode passar impunemente, só vai continuar no seu cargo se…” Então isso não pode mais ocorrer, os movimentos de esquerda tem que compreender o que é a opressão que vem deles e tem que construir essa aliança conosco e buscar transformação como um todo da sociedade, não basta mudarem algumas coisas e as mulheres continuarem oprimidas.

A relação que as redes sociais tem tido nesse processo tem sido classificadas algumas vezes como linchamentos virtuais, qual sua opinião sobre isso?

Infelizmente em nosso país há um traço muito marcante que é a impunidade, então muitas mulheres querem virar essa página e querem que os movimentos e as redes sociais também tenham essa preocupação. Uma das coisas que muitas vezes que as mulheres fazem é denunciar no mesmo lugar que tá aparecendo aquele tipo de violência, que não é um linchamento, mas sim uma reação, é reagir a uma situação que você ta vendo que só vai servir pra reproduzir a violência.

Por exemplo – que não é o caso – mas o Bolsonaro, quando fez aquela declaração pra Maria do Rosário, no outro dia quando a gente tava na rua fazendo uma panfletagem sobre a violência contra a mulher, pois teve homem que parou e falou pra gente assim: – “O Bolsonaro tá certo, falou tá falado!”, essas coisas no âmbito público tem uma repercussão que a gente não tem dimensão. O que acontece dentro do nosso meio, nos movimentos, é que isso é tratado de modo natural: “Ah, prostituição tudo bem, uns tapinhas tudo bem” é naturalizado, assim como na sociedade o machismo também é totalmente naturalizado.

O nosso papel é desnaturalizar, então é preciso sim ter sempre uma reação, querer uma punição pra que a coisa não passe dessa forma que reforça e reproduz o machismo. Tem vezes que algumas companheiras acham normal, porque ele aprendeu assim, ele cresceu assim e a gente sabe que os companheiros podem se transformar, ter uma outra visão, podem contribuir inclusive com a desnaturalização para combater o machismo e a violência.

A imprensa alternativa, inclusive, tem sido fundamental pra nós. Nos ajuda muito, porque as mulheres nunca vão aparecer na grande imprensa falando determinadas coisas, mas se a imprensa alternativa, de esquerda, dos movimentos nos dá espaço, isso é fundamental. A gente nunca vai esperar que a Globo fale nada em nosso favor.